De frio nos ossos, testa febril,
clama por pele com ardor tão vil.
Se faz semente em terra tão pura,
alma doente a exalar fingida ventura.
Hermes maldito de dolente adivinhações,
caduceu quebrado, protector de ladrões.
Macária que se faça presente neste dia rude
em que a alma frui do passado e me ilude.
Lira desafinada em troca de nada,
adeus gritado por voz cansada
de repetir sempre a mesma palavra
e soletrar ao infinito tantas farpas.
Paralítico no sono, andarilho mais aleijado.
Olhos arrancados, trocados por espelhos.
Vida já tão esgotada, dançada de joelhos.
Arruinado, fútil, ermo Cristo abortado.
Ao que possa ser pior
03:45
É tua sombra que persegue a selvageria de minha natureza,
a lâmina afiada que dilacera meu fígado por todo este tempo,
fecho os olhos e escuto a flauta e trombeta contando meus dias
que se passam vagos, entre passos não contados.
que mesmo com cães negros, ainda assim morreria pelo grito
da raiz cuja semente é o antes quente gozo do cadáver, que pelo
sentimento jaz balançando ao vento que frio ainda uiva tormentos.
E se encanta a criança brincando com tamanha e cega dedicação ao inútil.
É assim o homem, caminhando com cruzes nas mãos e tentáculos em volta do pescoço.
A observar o andar de quem dispara espinhos venenosos e faz tremer diante dos dentes,
vejo quais realidades oníricas vivi e quem devorou o que se perdeu com temores e amores pueris.
Suícidio Dionísiaco
Dissipa a nuvem que em mim se fez calma,
pois o presente de Prometeu já não me é útil.
Solta pela última vez esses desgostos no ar
e caminha sem a companhia deste enfermo Atlas!
Então se esvai, sombra de alma má sanada
e guarda um lugar nesta barca mortuária
para quem os prazeres enforcou com abusos,
vindos de quando não conseguia ver Hélio.
Serpente a devorar a própria cauda,
era eu a seguir Dionísio
nessa dança sobre cacos de vidro,
me era prazeroso o nocivo.
Mr. Hyde Falling Down
Aquiles corre rumo a vitória
das batalhas que o cobrem de glória
À todos é indispensável um mártir
que torne a insegurança mais amena
Mas seus túmulos também escondem seus restos
e suas vitórias não me trazem Helena
Heróis desfrutam de todo o prazer exacerbado,
vaidoso, que lhes é oferecido.
E eu, titã condenado, tolo, vítima, enganado
carrego o peso do mundo comigo.
Como Jekyll fiz queimar-me o coração
para destruir o perfeito erro da criação
e assim não mais ver velado no espelho
o fraco, desesperado e cego cordeiro
á alimentar monstruosos pastores
que nem sequer poupam suas dores.
Meu sono é um mergulho amoral na liberdade.
Caminho pelo oposto da tua convicção.
Caminho como Caim com Hyde no coração
Com Caronte navego entre os que são heróis de verdade.
Um mergulho em Aqueronte
Idealizei o erro perpetuado pelo preço alto de tua devoradora indecisão
Excita ainda caminhar em teus espinhos e arranhar-me por tua paixão
Desgosto cospe em mim minhas próprias fraquezas
e a solidão é sinal que Hades se encantou da tua beleza
Regurgitar o que se sente é tão infiel ao presente
que vivemos de fingir uma preocupação
que se dissipa exatamente ao soltar-mos as mãos
E insistir é só fraqueza de quem quer ser decente
Mas querida, nosso ópio se esvai ao piscar de olhos da injúria
Então mantenha sóbria essa marca de Eros bêbado em fúria
Deita e dorme, pois de mim hoje só verás indiferença
sem o vento para soprar e dissipar a nevóa densa
Que nestes esgotos que meu coração habita
ainda vejo ratos a lamber-me as feridas
Então tu, Métis infame, nega-me em Letes
e deixa-me sem barca atravessar Aqueronte