Minhas pernas inquietas me condenam;
Elas só se acalmam com teu rosto...
Jamais me vi sentindo falta tua na penumbra,
Mas me vejo agora, caçando cheiros numa coberta usada...
Não há mais noção de tempo,
Exceto na tua ausência (que me é quase todo o tempo);
Não houve nenhum esforço meu, ao menos...
E ainda dou-me o direito de ter dúvidas,
Que são culpa minha em restringir nossos momentos
À fins de noite e complementos...
Não espere mais abraços como cumprimentos;
Lhe darei beijos e carícias logo que nos virmos.
Quero que sinta que não me acanho de pouca gana,
O que me prende é sim a intensidade, a minha imaturidade,
E a diferença que tu tens diante das outras,
Com as quais talvez agisse diferente, contudo;
Sem sentir frio por não ter seu corpo a me aquecer durante a noite,
Sem sentir vontade de sentir teu cheiro impregnado em minhas roupas,
E sem a incerteza que - de leve - me atormenta.
Qualquer dúvida, por mais complexa que pudesse o ser,
Não teria a menor importância.
Queria eu que a sensação de ser o momento nosso
Durasse mais que uma noite ou um dia...
Mas por outro lado,
Nada muda quando te revejo o sentimento de alegria,
Ou a complacente conversa que as vezes temos
E que nos harmoniza...
Então me sento em frente ao vidro,
E cantarolo músicas em Dó em nona;
Que são as mesmas notas com as quais chorei e sofri...
Mas que, seja por quanto tempo for, agora lembram teu sorrir...
O que eu (não) estou vendo pelo vidro
Cólera
Escorro meus lábios,
Gotejam de mim os destroços de uma humilhação.
Meus sonhos se calam diante da sua imensidão,
tu não foges da minha mente,
Por que de tão presente tornou-se minha maior obsessão...
Minúscula partícula de pesar, transmutada
Em rasgos de palavras,
Em oceanos de dor e dúvidas;
Minha vergonha é a de não ter sabido lidar,
Nem com o seu amar nem com o meu...
Nem com os momentos antes não tão raros de felicidade,
Nem com as perdas e destruições de uma derrota.
Tudo que um dia eu sonhei,
Foi enterrado em mágoas;
A vida me fez ver bem de perto as suas lágrimas...
Mas me privou de ser o motivo de seus sorrissos.
Sonho em meus abraços como sendo o teu abrigo,
Careço de razões pra continuar fantasiando com teu rosto...
Rápidamente se desfazem em lembranças dolorosas,
As imagens que - embora falsas - me ajudam a espantar o que me aterroriza...
O mesmo sorrisso que me acalma,
Sem mudar agora me enraiviza.
Encolerando à fácil exposição,
Meu coração aos poucos se desvaloriza,
Ao limiar da incompreensão e da fatiga.
Meia Luz
Rasga as cortinas da minha alma
Despedaça a minha carne e me encoleriza;
Meu rosto queima no despertar dos sonhos,
Teu nome é como faca encravada no meu crânio.
Um prego que afunda nos meus olhos
Tu martelas a morte em meu ouvido,
Ouço cintilares ecos de gemidos
Fracos ecos da minha saudade
Lampejos embaçados do teu sorrisso..
Eis a tua face em máxima expressão,
Minha dor e minha raiva, que me consomem...
Meus desejos em ojeriza suicidar-se-ão
Deixando-me a sós com minhas angústias e a solidão...
Estado
Uma noite vieram me visitar
Pessoas de bom coração, de alma serene
De força e compaixão;
Ao se aproximar, senti estranho toque,
Senti como se fosse ao teu lado...
Ao me questionar qual seria esse laço,
Eis que a resposta logo viera;
"Esse é o amor que sinto por ti,
puro como o que sentes por ela!"
E raros foram os pensamentos
lúgubres e lamuriosos em minh'alma;
Só restou a vontade de extender aquela paz a ti.
Feliz de quem é certo de seus sentimentos...
Há os que são cárceres de si mesmos,
Chafurnando nas asas do momento.
Impregnados de verdades distorcidas,
Corrompem sua própria alma e lamentam
a perda tão sofrível de uma vida...
Mas eu nunca tive dúvidas,
Amar é a máxima expressão do bem.
Que encarceram em suas mágoas...
Tantos que não aceitam tão pequena condição...
De aceitar, quão simples é meu coração...
Faltas e falhas, mentiras e dor,
Nunca seremos nada,
Duas pessoas que insistem em se ver,
Em se preocupar e se arrepender,
Mas cuja razão única é o amor...
tributo à pessoas que me cercam e apóiam mesmo não estando no mesmo plano que nós. Obrigado.
Porcos
Me ardem o peso das palavras
Que me cortam o sentir em fome;
Sinto o cheiro dos porcos,
Que me caçam a largas passadas...
Na hora meus sonhos hão de vir,
Tornar-se-ão a minha vida enfim
Aquela que habita minhas noites
Que precede meu sono,
E corrompe meu suspirar...
Peca em excessos,
Excede nos retrocessos,
Nossa vida é uma teimosia!
E que nos há de salvar...
Queira ler entre as linhas,
Há mais mensagens que se pode imaginar
Corte minhas veias mais do que estão!
O que ainda me há de tomar?
Lábio
Maculo as paredes dos quadros
Habito as teias dos pensamentos
Calculo as viagens e momentos
Embebendo-me esperando reles fatos.
Que és mais que uma miragem no poente
Estirada com as mãos no meu rosto
Tocando o meu peito com os lábios cerrados
Enquanto o céu desabava em torrente?
Paredes transponíveis
a teimosia que nos há de assegurar;
dessas ilusões do sentimento...
Em tracejos sinuosos teu lábio encerra
O desejo de segurar-te em proteção;
Pra que nosso amor não nos mate em sofrimento!
Tela
Oníricamente a face não tem cor,
Resume seu viver em um exisitr incolor,
Cravado de pedaços e palavras...
Palavras, essas que tem endereço,
Quão ridículas são as declarações!
Quão óbvias são as mentiras,
Não passam de orgulho os entraves,
Lento a despertar tão tarde,
O amor que é cego e é inutil!
Amor esse que é compartilhado,
Mas não entre nós direcionado,
Como é pífil ver-te proferir
palavras tão óbvias e tão densas,
As mesmas as quais escondo aqui!
Julgamento
Quão infeliz é a saudade,
O desgosto do desejo,
A falta do te ver...
Questiono se perto seria melhor...
Talvez seja a distancia que nos salve,
Mas é tão doloroso querer-te aqui,
Que me pergunto se valeria a pena um constante sofrer,
No trocar por ve-la sempre...
E com nossos recentes encontros a considerar,
vejo que ia ser mais que um sofrer constante...
Seria um acostumar;
Seria novamente acostumar ao silêncio, ao chorar baixinho;
Mas eu teria com quem argumentar
Coisas que só entre nós faziam sentido...
Eu quero a tranquilidade de poder falar-te,
Sem ti por perto a felicidade é efêmera;
Persiste até você surgir em minha mente...
Só queria também que fosse justo,
Que fossemos fiéis a nossos sentimentos...
Se mesmo mentindo, escondendo, ainda queremos ficar juntos,
Que mal há se houver consentimento?
O sofrimento sempre fez parte de nós,
E eu nunca quis te deixar pra trás...
Mesmo doendo é melhor a dor do que a aflição que sinto,
De ter-te de volta em minha mente, mas não em meus ouvidos...
Um dia o nosso "adeus" será feliz,
Não o prelúdio de uma manhã chorosa;
Cansei de leva-la embora e voltar ao copo,
Quero levar comigo a certeza de que te importa...
Quero teus lábios procurando os meus,
Não os meus a caçar-te em vão...
Mas não tenho forças pra desejar,
O ânimo de sonhar já a muito se foi,
Você sente o que eu sinto, você chora pelo que chorei;
Mas eu nunca quis isso...
Me transformou, me recriou,
Mas me cortou feridas que nunca fecharam...
E que doem sempre que eu beijo outra boca,
Abraço outro corpo, falo besteiras por falar...
Me dói por que eu sei que não é com esta boca, nem com este corpo,
Que eu seria feliz...
Me dói por que minha felicidade está em ti,
Transcendendo tudo que passamos...
E sei, que se tu sentes o que eu sinto, será assim...
Me beijarias sem querer realmente,
Me abraçaria procurando outros braços...
E de adianta que tu sofras, se só te afasta...
d(Eu, Você)=k
Me devolva as palavras
Que respondem às perguntas que me faço,
Por que eu não me importo mais?
Me alivie as dúvidas,
Por que ela não me importa,
Por que eu não dou a mínima importância,
Enquanto ando sonhando com alguém ainda mais absorto?
Não ouse voltar,
Não arrisque ouvir de mim que você perdeu seu tempo,
Perdeu sua vida distante de mim,
Jamais te perdoaria por ter me feito esperar,
Por ter me feito te amar sem eu mesmo querer,
Por ter realmente me amado e não admitido,
Por ter um dia ainda brigado comigo,
Não te perdoaria jamais, mas não ousaria discordar de mim...
Que mal me fazes, quantas dúvidas motivas,
Quantos nãos já falei por tua causa...
Quantas vezes acordei com a alma mordida...
Quantas vezes me tiraste a calma!
Nós que nunca fomos nada,
Que nada é esse que toma tanto espaço em mim?
Oceano e Trevas
Cortaram as cordas
Que atavam minha vida
A pedaços disformes do passado.
Rangeram portas atrás de mim,
Fecharam-se caminhos,
Mas desataram-se nós em mim.
Nós que me confundiam...
Prendiam, em lembranças,
Em fatos inverossimeis,
Nós que nunca seríamos,
Nós que nunca fomos.
Nós que atavam dores,
Nunca fomos,
Nós que nos amavamos,
Talvez tenhamos sido,
Mas do que nós são culpados?
Só dos nós que se tenham partido...
Som (Capricórnio, Capricórnio)
Não há certeza de nada, exceto a energia
Que circunda, rodopia, gira
Vai crescendo.
Eu vou sentindo como se você estivesse aqui,
Como se quissesse ao menos estar.
Mas eu já senti isso antes,
O que há de diferente?
Há que com você não há o que cobrar...
Não menti, não trai,
Não sofri...
Há o que presente,
No próprio presente estar,
O que sente o presente,
Em ti mesma não ficar
Não ficaram marcas, antes tivesse as deixado;
Que o que fique permaneça por mais tempo...
E se não ficar, não será pra sempre...
Não será o último, e não será o único,
Será apenas um, será apenas mais um;
Será apenas um sábado...
Água (Aquário, Gêmeos... )
Regando jardins de esperança,
Nutrindo rosas rasgadas e caídas,
Reuno pedaços em sorrisos de meio lábio,
Mais profundos e sinceros que uma boca inteira.
Poeira, fuligem.
Não há carros, mas o ar não é puro,
meu corpo não é tão leve,
E o som não é tão suave...
Eis então que sua voz se aproxima...
Teu beijo só me lembra o carinho...
Tuas palavras não me trazem dor,
Queria eu ter despertado sozinho,
Mas quão bom é acordar a dois...
E ver meu corpo ir purificando,
Seus lábios lentamente adocicando,
Com o doce de meus beijos,
Embalar-te um contido sono,
Aquecer-te em uma noite fria...
Se soubesseis do quanto me libertaste...
Talvez me prendesse em teus abraços,
E não mais me soltasse!
Frio
Árvores secas, ventos gelados,
A chuva fina,
Os sopros glacias...
Sinto falta de quando era frio,
De quando aquecer era fácil...
Os gatos assistiam,
Os fantamas observavam...
A infindável fonte de assunto,
As conversas que sempre acabavam com um:
"Até amanhã",
e as vezes em que eu dormia acordado,
Ouvindo palavras de reclamação,
Tão doces quanto as vezes que diziam que me amavas...
Sinto falta de quando você sentia falta de mim...
Sinto falta das tardes frias...
Sinto falta da chuva fina, das palavras sem sentido...
Por que as palavras não careciam de sentido,
Quando o objetivo era ficar junto...
Sinto falta do silêncio...
Sinto falta dos meus sonhos...
Sinto muitas coisas, mas não sinto...
Vento
Hiatos...
Forças dissipativas, carcaças,
Ruínas e vazios silenciosos...
O Sono, a Ira,
O desespero, a revolta...
Que há de ruim em sofrer,
além da falta de esperança?
Corta-me a garganta pensar em soluções...
Dilacera-me o peito pensar em possibilidades...
Que há na vida de tão ruim,
que não possa perder-se a esperança?
Seu rosto, em meio a números,
Soa como um tiro de misericórdia...
Como vc podia ser boa...
Como podia ter sido a redenção...
Às vezes penso e sonho,
Após um dia exaustivo encontrar-te em casa...
Dormir a teu lado, viver em teu colo,
Conversar coisas fúteis em troca da tua companhia...
Não me devolvas à apatia...
Não me devolvas à derrota...
Não queiras assistir de perto tudo que passei contigo longe...
Não seria agradável a visão... te forçaria a te afastar,
E assim tudo seria o que sempre foi;
Corrosivo até perfurar meus olhos,
Lágrimas ácidas que doem ao cair,
choros da minha alma que insistem em não se expor materialmente...
Dúvidas não são bem o termo,
Sofro de certezas, impossibilidades...
No amor, na vida, na alma...
Sofro de profecias incompletas,
de calmarias inquietas...
Genérica Repulsão da Indiferença Traçada em Olhos Secos
Mera ilusão acreditar,
Que a abstinência era a solução.
Mesmo longe, mesmo sem ouvir tua voz a tanto tempo,
Eu busco sem perceber um "você" em cada uma delas...
Quem dera houvesse uma solução...
um remédio, uma pílula
Eu já desisti a muito tempo de você,
Já cansei de sonhar, já esquartejei minha esperança
(e faz muito tempo),
Mas eu ainda olho as fotos com pesar...
E te vejo em cada chuva que me faz refletir,
Cada noite que eu ando sem ter pra onde ir,
Em cada pequeno olhar, em cada amigo...
Minha cabeça voltou a doer...
E eu voltei a tocar guitarra...
Comecei a te trocar por contas e cálculos,
Acordes e analgésicos,
Mas nem o tempo, nem a distância, nem a falta, me fizeram te esquecer...
E só dói não entender por que ainda dói...
Não é nem a perda, não é nem a vergonha,
Nem a decepção,
São só as cicatrizes,
Só a doença que degenera...
Quisera eu ter como imaginar,
Minha vida sem o teu rosto na minha mente...
E quisera eu não ter um dia tentado entender,
Quisera eu ter sido como você... ainda...
É injusto escrever por ti,
é injusto você ainda ter em mim alguém que te ama...
Onde isso me é retribuído?
O que ganhei com isso?
Ganhei o silêncio,
Ganhei a ausência,
Ganhei a falta,
Ganhei a neurose,
Ganhei o medo,
Ganhei o pesar,
Ganhei a mentira, que minto todos os dias...
Ganhei as farpas de uma ilusão,
Perdi toda a alegria sincera de antes...
E tudo isso ainda sem desejar...
Por que por mais que eu um dia tenha te amado,
Nada é tão grande ao ponto de resistir a tantos efeitos colaterais...
O Crediário
Fere ferozmente,
Corta sutilmente,
A sensação de saudade do retrocesso,
a dívida, a dívida...
As nuvens escuras que me rodeiam novamente,
A paz me roubam docemente em doses,
Cada gesto, um golpe.
Dívidas, dívidas.
Dívidas que dividem minha alma,
Em frações indeterminadas,
Em numeradores nulos,
Cortes expostos e frágeis,
Palavras que ecoam sem minha vontade...
Dívidas, dívidas,
Que possuem minha alma,
Dívidas, dívidas,
Que destruiram minha calma,
Dívidas, dívidas...
Sonhos...
Que penosos!
Dívidas que ecoam até no meu astral,
Falhas incorretas...
Rasgue, rasgue,
Perfure.
Deixe-me pagar a conta à vista,
Essas prestações estão me matando...
Dívidas, dívidas,
Dividindo meu tempo entre obrigações, sonhos e tempo perdido,
Queria eu perder meu tempo...
Subterfúgio
Amargura das tuas dores
Expostas em chagas carnais,
Eu não respiro mais o mesmo ar que ti,
Eu me recuso a pensar no mesmo que ti,
Eu me recluso ao meu esquecer...
Dê-me outros motivos que não a dor pra te rever,
o masoquismo de sentir de novo o agudo grito da morte
Teus dedos me lembram garras, que cortam minha pele
Meu coração é fogo fátuo que queima gelado dentro de mim,
Forçando-me a expulsar o calor pela boca...
Asas rasgadas boiam no teu mar,
Dos anjos que te tanto rodear-te, caíram,
E queimam nos teus dedos.
E é o amor, o mesmo que me consome,
Que me leva ao asco de te ver...
Onde seria possível entender,
Que uma criatura me fizesse tal bem,
Para depois me afogar no mal?
A guerra é o meu subterfúgio,
O eterno sofrimento de me desculpar.
E a cada frase ver nos teus olhos escrito:
"Você não era assim".
E com cada olhar te responder:
"Foi por tua causa que me transformei"...
E ainda ver-te admitir, e impotente desertar
Deixando em mim as chagas a curarem por si só...
Projeção dos Olhos Vagos Na Noite Colorida
Meus olhos já não sentem mais,
Observo a noite com olhos de plástico
Sinto você se aproximar
Como se fosse o vento
Sinto você por mim passar
Como se fosse por dentro
Sinto você me observar
Mas eu não te entendo...
Seus olhos curiosos que não dizem nada,
Seu corpo sinuoso que se esconde dos meus olhos,
Seus braços nus,
Sua perna semi-exposta,
Seu olhar cadente, ainda paciente a esperar
Que eu olhe talvez, pro mesmo lugar
Seu olhar ciente que é melhor estar
Olhando pra dentro de si,
Confiando a si própria palavras de amor...
Quais serão os seus comentários
Depois que a bebida acabar...?
Como será a sua noite
Depois que a noite acabar...?
Doença Crônica
Somente às minhas ocultas companhias permito saber,
O quão efusivamente desejo tocar-te a face...
O quão profundamente desejo-te o bem,
Em detrimento dos meu próprios sonhos...
Momentos privados me são momentos de privação...
Sozinho, sua ausência se torna mais notável...
No calor do travesseiro tua falta é mais constante,
Em alguns momentos chego até a senti-la...
Até me iludo em pensar que te faria feliz o meu toque...
Até que você aparece na minha frente,
Reluzindo os olhos enamorados,
Alheia ao mundo ao redor e ciente da própria alegria...
E então faz-se pó a minha ilusão,
Faz-se cinzas o meu peito,
Faz-se faísca da minha compaixão...
Que ainda insiste em ponderar:
"Que seja feliz, não comigo, mas com quem quis"
Antes eu compartilhasse desse desejo...
Quando então desistirei finalmente?
Nunca movi um músculo para ter-te em meus braços novamente...
Mas minha mente sempre alimentou a esperança no seu amor...
Mas até dele, e principalmente dele, eu devo desistir...
Mas como é duro desistir de algo tão desejado...
Meu coração pesa mais que meu corpo...
Capital
É como um céu estrelado,
As estrelas se apagam com a luz da noite,
A luz elétrica fútil e podre...
Só sobram as estrelas mais próximas ou mais brilhantes,
Assim como as vezes só se notam as luzes menos distantes,
Mesmo que no além destas existam muitas outras,
Muito mais brilhantes, muito maiores e muito mais belas...
A lua assiste um relampejar de luzes fracas todas as noites,
As luzes dos olhos que ainda choram por estrelas cada vez mais distantes,
As fracas cintilâncias de corações amargos de tão ácido que se tornaram.
As nuvens já não são mais obstáculo,
Não para os meus pensamentos,
As luzes ainda cegam meus olhos,
Que ainda marejam com pensamentos inúteis...
Como é difícil admitir que não foi NADA
Que jamais será alguma coisa,
Sendo que por meses pra mim foi tudo,
Admitir de uma vez que nunca será NADA
Eu REALMENTE amei,
Eu REALMENTE sofri,
Eu REALMENTE mudei,
Eu REALMENTE quis...
De todos os meus defeitos e erros, eu jamais fui falso...
Talvez tenha sido burro de tentar mentir coisas óbvias...
Mas estava escrito na minha cara todos os meus sentimentos,
Estavam fervendo em minhas veias todas essas palavras...
Mas não foi NADA, e jamais será alguma coisa...
Eu perdi, eu não superei e sou fraco
Eu admito ao mesmo tempo todos esses defeitos...
É tão dificil esquecer, por que é admitir mais que uma impossíbilidade,
É admitir uma incrivel e sonora DERROTA.
E uma derrota que eu perco cada vez mais...
Os 7 Mares da Minha Culpada Consciência
Navega em mim de velas abertas,
Larga tua âncora em mim e repousa
Tua mão sobre meu corpo.
Ancore-se no meu peito,
E abrigue-se nas minhas mágoas,
Corte-as ao meio e desfacele-me,
Eu sou o rio que sobrou do seu mar,
Que secou nas veias de uma solidão,
Meus pedaços boiam no meu sangue,
Meu corpo nada.
Meu ego se perdeu nas cachoeiras dos teus olhares...
Eu te amo, na mesma proporção que me afogo
Corto meu âmago em pedaços e te cobro,
Pelas pequenas mentiras no teu olhar...
Meu barco velejará,
Pra longe de ti.
Deixe-me ir, e não me faça me arrepender...
Eu vou pra longe, pra ver se o mundo é redondo
Se eu nadar até o fim dele,
Voltarei para os teus braços, um dia...
Tempestades são as palavras soltas,
Os ventos secos,
Os perfumes doces,
Os olhares cabisbaixos,
E os cabelos negros,
Que me lembram você...
Mas meu barco está em alto mar,
A deriva, solto pelo seu navio,
Aos poucos me distancio,
Até um dia ancorar em mim mesmo.
E não me faça querer pular no mar,
Nadar de volta tudo que velejei,
Não me faça seguir de bote pelo rio extenso,
Nas águas turvas da derrota superada,
Não me faça colocar tudo a perder...
Deixe-se acorar em mim, mas não me faça recair...
Crie um novo rio, abra-me em mar,
Mas não me faça querer voltar a nado...
Síntese
Uma síntese imperfeita da simbiose carnal hominal exemplificada em pequenos instantes despedaçados incrustados em peitos nus e virginais (ou não).
Cortes profundos que cicatrizam sem cicatrizes, pastas de dor que não dóem com o tempo, tu és as cores que eu não enxergava, tu és as facas que me cortavam, tu és as estrelas que eu não alcancei, tu és as farpas da minha saudade.
Lábios que diziam palavras voláteis que logo ligar-se-iam com as palavras que da minha boca partiam, teus lábios eram os mares por onde meus barcos se perderiam, teus lábios eram os céus por onde meus aviões rasgariam em queda, teus lábios são os pesadelos que eu sonhei, teus lábios são os sonhos que eu nunca imaginei.
Teus olhos eram as margens do infinito realizado em pedaços parcelados do amor que eu achava possível de alcançar, teus olhos eram as luzes que me faziam enxergar, teus verbos eram os olhos a que me faltavam, e teu olhar era o mundo ao qual eu tentava despertar.
Tu és o que de mim foi usurpado, tu és o que a alguém foi agraciado, com a mesma facilidade que a mentira pelos meus ouvidos entrava e pela tua boca saia, tu és a falsidade ignorante que me cercava, tu és a luz exatasiante que me cegava, tu és o aconchego que mesmo assim desejava, tu és o abraço que me falta.
Chumbo II
Minha alma de chumbo,
Minhas asas de chumbo,
Sobre o mar escaldante.
Minhas asas de chumbo,
Voam mais leves que minha alma
Minha alma de chumbo,
Ferida pela água do mar do egoísmo.
Meu ego de chumbo,
Encharcado de óleo.
Meus olhos de lama,
Cheirando a medo,
Meu corpo é ar.
Meus erros de lata,
Minhas mágoas de ferro,
Meus medos de prata,
Minha alma de chumbo,
Meus braços de alumínio,
Enferrujados com sangue.
Minha alma de chumbo,
Que flutua num mar de fracassos,
Arrependimentos e erros,
Afunda num mar de lama e discórdia,
Num pântano profundo de medo.
Meu corpo se torna um fardo,
Meu espírito se libertará mais cedo...
O Nada (ou O Céu)
Um hipótese surgiu na minha mente um dia:
As árvores são azuis e o céu é verde,
Minha cama fica no chão,
E minha porta na parede.
Você não passa de uma figurante,
Que um dia fez uma mini-série,
Na história em si,
Você era no máximo e só por um tempo,
Um cenário.
Tive estalos de lucidez,
Nada é tão lúcido quanto a imbecilidade,
A névoa do futuro,
não é tão clara quanto a fantasia,
é mais fácil te considerar o fim,
Do que um simples começo.
é mais dificil considerar sobre o mundo,
Do que divagar se te mereço,
Todo final tem um início idiota,
E um lapso de lógica mais imbecil ainda...
E as flores todas são rosas,
Nós é que inventamos outras,
Assim como todas as falhas são nossas,
Nós é que escondemos todas.
Fraca é a luz no dia ensolarado,
Mas eu me cego com uma lâmpada depois do escuro.
Brilha mais forte a vela quando é de noite,
Os olhos brilham mais forte quando é de amor.
A vela não é nada frente a luz do sol,
e o amor não é mais nada quando iluminado.
Todos os campos são vermelhos,
Nós é que limpamos.
Todos os cartazes são de guerra,
Nós que nos enganamos.
As saias são mais belas no corpo nu,
As roupas servem melhor jogadas no chão,
O sexo é tão carnal quanto o aperto de mão,
E a carne é tão podre quanto o céu.
Não é nada, nunca foi.
Não foi, nunca será,
Não é de mim, nem caberia,
Não é assim, não vá tentar,
Não faça isso, não deixe amar,
Não foi assim, nunca será,
Não é assim, eu nem queria,
Não foi nada, eu nem sabia,
Não foi nem sim,
Não foi a tarde,
Não foi...
Nem haveria de ser, então
Não foi nada!
Não foi nada que valesse a pena,
Não foi nada que valesse o ódio,
Não foi nada que valesse o medo,
Não foi nada que valesse o beijo,
Não foi nada que valesse nem mesmo o nada.
Porque o céu é um nada.
E não queira comparar-te ao céu.
Moinhos de Vento
Ao norte eu vi moinhos,
Vi olhos que me fitavam descrentes,
Vi olhares estranhos, porém conscientes,
Vi seres de formas que eu desconheço,
Vi todas as cores e todos os selos.
Andei por entre árvores retorcidas,
Campos ermos e lamaçais,
Em alguns deles vi seres que me olhavam,
Em outros eles simplesmente me ignoravam,
Embora a maioria de mim não discordava,
Que seus olhares fixos me ardiam a alma.
Estático nos degraus,
Estava uma criança,
Que sutilmente parecia tentar me adentrar a carne,
Por entre os vão da minha alma,
E isso doia severamente,
Seus olhos eram lanças e seu rosto intocável.
No fim sentei longe do seu olhar,
Mas o peso dela me perseguia.
Até que um anjo a veio buscar,
E então eu a vi partir, sem me olhar,
Meus ombros sentiram um peso a menos.
Antes que eu me esquecesse dela,
Uma outra criança tentava tomar o seu lugar,
Como um peso, só que no meu peito.
Doia igualmente, só que ao invés de tentar entrar,
Essa tentava sair, e como estava muito profundamente fixada,
Seus movimentos feriam todo o meu corpo,
Cada gesto, por mais simples, era doloroso.
Mas depois de muito tempo sofrendo,
Finalmente resisti e consegui sufocar essa última,
De forma que pouco dói atualmente.
Os seres dos moinhos ainda me observam,
E vez em quando tentam me olhar,
Mas eu estou mais escondido,
Por entre as àrvores retorcidas.
O que eles escrevem é o meu abrigo,
E o que eles dizem me acalma.
Mar de Chamas
Sinto como se minhas lágrimas fossem ácidas e corroesem meus olhos antes que eu pudesse chorar...
Sinto como se te esperasse sendo que nem mesmo meu coração eu sei controlar,
Parece que estou imóvel diante de tudo, mas eu estou prestes a voar,
Com asas de pano, mas com ventos que me empurram e me chamam,
Meus olhos já não veêm mais a mim mesmo, só o meu interior
E assim eu choro lágrimas abstratas de dor,
E assim eu imploro por pedaços rasgados da partitura onde compus o nosso amor.
Choro por pedaços inúteis do que um dia chamei de razão da minha vida,
E que agora clamam por um fim irremediável ao sofrimento nessa ferida,
Que você rasgou no meu peito.
Eu sangro a imundice de uma finitude,
Gotejando aos poucos a sujeira que restou de um fracasso,
Sem você eu sou um mar sem céu,
Opaco, sem cor e profundo,
Inundado de seres sem corpo,
Afogado em facas sem corte,
Eu sou o que sobrou de um mundo,
Que ruiu vendo a sua morte.
Chumbo
Eu estava errado.
Eu estava errado o tempo todo...
Eu estava errado quando achei que você e eu éramos algo que não tinha o direito de acabar.
Eu estava errado quando pensei que uma briga idiota não ia destruir 5 meses de convívio.
Eu estava errado.
Eu estava errado quando pensei que não era lógico um namoro começar com um cara que se acaba de conhecer...
Eu achei que isso fosse acabar rápido, e você ia voltar... Mas eu estava redondamente enganado.
Eu achei que o amor fosse motor suficiente pra que outra pessoa me amasse, mas eu estava errado.
Eu achei que tudo fosse passar bem rápido, que nós nos veríamos denovo como amigos, e nunca mais sofreríamos por esse motivo. Mas eu estava errado.
Eu achei que eu ia te ver na rua e ia me controlar pra te cumprimentar... Mas eu estava errado.
Eu errei por muito mais coisas do que eu sou capaz de lembrar...
E se eu errei é justo que eu sofra, para não errar mais.
Mas eu posso estar mais uma vez, errado.
Não me surpreenderia que tudo mudasse de repente... Mas eu erraria denovo...
Eu só acertei quando eu disse que sabia como ia acabar...
Comigo sem você me sentido um pedaço remendado de gente tentando (sempre em vão) parecer recomposto, e você praticamente em núpcias com alguém que eu não conheceria.
Eu errei...
Não existe nenhum caminho até mim agora...
Eu já estou longe.
Nuvens Secas
De todos os lapsos de memória,
Aquele menos irritante é o das suas lágrimas...
Pelo menos elas eram sinceramente por mim.
A cada manhã de janelas fechadas e cheiro de mofo,
o que mais sinto falta é você me ligando,
provavelmente me entretendo de coisas que mau escutava,
Apenas ouvia algo mais importante: Sua voz.
Quando eu saia de casa pra te ver,
O que mais me lembro não é da alegria de te encontar,
Nem do abraço apertado de "oi",
Mas de quanto eu rezava a cada metro
Pra que você me recebesse com aquele mesmo abraço,
Aquele mesmo beijo, que fosse o mais inocente,
Mas era a ansiedade de te ver que me dava vontade,
O fato em si já era tão fora da realidade,
Que pouco importava se eu estava feliz de verdade,
Ou só fugia de mim mesmo pretendendo que você me amasse.
Hoje eu tenho mais alegria quando eu vejo uma foto sua,
Ou quando você aparece repentinamente,
Do que quando lembro, sozinho,
De como você gostava de mim,
E agora mal nos falamos.
É mais dificil encarar meus pensamentos
do que as reais provas de que você está longe.
É mais difícil encarar a mim do que a você.
Você parece feliz, eu confronto uma imagem sóbria,
mas pálida, toda vez que me vejo.
Em você eu vejo a felicidade que nós queríamos,
Em mim eu vejo a tristeza que eu temi.
Mas depois de ter te visto correr de mim,
Chorando, e depois te abraçar ridiculamente,
Depois de te ligar num domingo de manhã,
Ouvir um "alô" feliz, mas terminar com soluços e lágrimas,
Depois de um dia ter dito que não te amava,
É dificil não acreditar que o pior já passou.
É dificil achar qualquer coisa, na verdade...
Daqui Para o Fim... Ou Adiante (parte: 1)
Largando aqueles que lhe amavam,
Segurando firme este último trago,
Negando o céu tão esperado,
Fecha os olhos que choravam.
Talvez seja a alma, a alma doente
De alguém que quis amar e nunca amou.
Tantos passaram em seus braços e tanto gritou
Que nem mais espera seu rei sorridente,
És aquela princesa derrotada,
Injustiçada, amargurada, tudo humilha.
Tristonha, da solidão és eterna filha,
Rainha da face chorada.
Abraça a dor, cheia de sofrimento,
Sem sorrisos, sem esperança.
A vida por um fio que balança
E que se rompe e a mata neste momento.
Palavras Só(s).
Eu te ignoro, eu não te esqueço.
Cada vez mais vou acostumando meu coração,
da vontade escondida,
De como seria bom te dar um abraço...
Sinto como se amasse um cadáver, ou um fantasma...
Eu nem te vejo, nem pra me machucar um pouquinho,
Até em meus sonhos você está desbotando, desaparecendo aos poucos...
Me sinto cada vez mais longe, mais forte e mais distante
De todas as palavras que eu quero esquecer,
Mas eu me sinto mais próximo da saudade
das lembranças manchadas que eu tenho de você...
Não sinto saudade de te fazer chorar...
De te ver rapidamente sem poder olhar,
de me segurar pra não te beijar,
Sinto saudade de quando isso tudo era tão livre...
O que torna tudo ainda pior, já que é tão impossível...
Foi um momento tão sublimemente rápido,
Que é imposível reproduzir...
Qualquer dia que eu te encontrar agora,
Seria de um silêncio antagônico aos tempos onde,
Não havia assunto que não falássemos com desenvoltura,
Não havia dia em que não houvesse a vontade de ouvir sua voz,
Não havia chuva me impedisse de fazer a mais idiota visita,
A mais fútil conversa era a mais interessante,
A mais longa caminhada com você era a menos cansativa...
No fim eu não sonho mais, eu só consigo lembrar...
Lembrar de seu sorrisso, cada vez mais encardido...
Eu espero que ainda sorrias como antes...
Na verdade eu sou de certa forma atormentado com essa certeza,
Mas é uma dor que me alivia,
Me dói ter cada vez mais a certeza de que ficar longe de mim foi o melhor pra você,
Mas me alivia saber que ao menos ficar longe eu soube fazer,
E que isso te fez feliz...
No fim, eu te fiz feliz, pela abstinência...
E não estou triste, só estou sozinho...
E sozinho é inevitável olhar para onde seu rosto antes a mim sorria,
Sozinho é inevitável... Mas esse sozinho não deve durar pra sempre...
E então, tão de repente quanto eu te encontrei,
Pode ser que eu te esqueça, e pode ser que nada aconteça,
E pode ser que eu amadureça,
E um dia nos encontremos denovo não para sofrermos,
Mas para ficarmos juntos...
E então eu poder sonhar novamente...
Lacrimosa - Dich Zu Töten Fiel Mir Schwer
Te Matar é Difícil
E não existe nenhum ar
E não existe nenhuma espaço
E não existe nenhuma ansiedade
E isso é tudo o que eu deixei
Eu tenho que sair
Eu tenho que ir
E ainda assim - eu estou apenas procurando por você
A vida que eu nunca encontrei
Vida - meu refúgio em desespero
Tudo o que eu fiz foi amaldiçoa-lo
Para depois e mais profundo ainda
Procurar o seu beijo
Você - luz de minha alma
E agora para você
Minha mente doentia
Prezervada na liquidez do tempo
Eu lhe dei sangue do meu coração
Alimentei-a com o poder dos sentidos
Eu a deixei ter muita autoridade
Até lhe dei autoridade sobre minhas ações
Eu lhe dei amor - minha confiança
Minha amiga - você me machucou
E ainda - isso não acabou
Eu ainda a ouço respirar
E ainda posso ver o tremor de suas mãos
Memórias começam a tomar vida
Começam mais uma vez a me torturar
E silenciosamente ganham meu coração
Meu coração - você dor confiante
Você me manteve vivo
E me atingiu com mais torturas
E eu ainda não entendo
Não - ainda não acabou
Eu ainda posso ver o brilho em seus olhos
O tremor do seu corpo
Portanto mata-la foi difícil
Sim - matar foi difícil
Seu nome hoje soa como um livro vazio
Como uma promessa nunca cumprida
Mata-la foi difícil
Sim - mata-la foi difícil
Por um curto período você foi a luz
E você foi minha passagem para o mundo
Porém, você agora jaz suave
Vagarosamente morrendo dentro de mim
Ao Meu Reflexo
As águas turvas dos lagos abandonados
Atualmente só me recordam à podridão,
O que antes refletia a beleza e a luz,
Somente mostram uma face mais densa da escuridão,
Uma que está alojada em mim,
Que não me deixa te ver e não mergulhar em ti,
Que não me deixa te ver e não me esconder em mim...
Cada palavra que eu destilei sobre você,
Cada verso onde eu te disse que teu ódio seria a mim um alívio,
Cada parágrafo que dava a entender a luz que em mim crescia,
Eram linhas hipócritas.
Cada dia em que minhas palavras foram se tornando mais doces,
Cada gesto que foi se tornando mais sutil,
Cada palavra que foi se acariciando em teus ouvidos,
Cada toque que foi se tornando mais gentil,
Foram gestos hipócritas.
Cada poema que eu li e senti o alivio de te sentir,
Cada sonho que eu criei pra me ver perto de ti,
Cada acorde que eu criei pra ilustrar o seu amor em mim,
Foram fantasias hipócritas.
Me enobrece a vontade de te ver feliz,
Mas me enoja a hipocrisia da minha alma em te deixar pra trás...
As gotas que caem do céu azul,
As folhas que se jogam das árvores,
Os relâmpagos dos dias de sol,
São mais plausíveis do que dizer que eu não penso mais em ti...
São mais reais os acordes vagos onde eu te escuto,
Que as palavras densas onde eu te expurgo...
XXVIII
Eu te avisto me buscar, mas seus dedos não me tocam...
Sua pele é macia como a de uma deusa...
Que saudades tenho de te abraçar e sentir-te aquecer..
Lamento todos os dias cada palava que eu esqueci de te dizer...
Lamento cada gesto que não devia acontecer...
Mas aconteceu, e cá estou, exilado dentro de mim mesmo...
Me refugio nos acordes úmidos e nas palavras secas,
Fujo tentando te encontrar nos pedaços lúgubres de cada ser,
mas só encontro pedaços esparsos de um nada descontruído...
O que sou eu agora? Me sinto nu, oco e sem abrigo,
Um nada intimimamente destruído...
O que houve comigo?
Foi culpa minha, foi sua, foi o destino, foi o fim da linha?
Foi algo evitável ou foi a nossa teimosia?
Foi o que você quis querer ou o que você queria?
Foi eu que te deixei ou você que me deixou?...
Caído na lama da confusão e da derrota...
Despejado da morada do amor e da alegria,
Que sou eu agora, se não um ex-amigo da felicidade...
Um ex-irmão do amor, um passado morto-vivo e ambulante...
Que serei eu mais adiante?...
Que serei...
Retrato
A chuva não cai, ela escorrega suavemente
Pelas paredes invisíveis do universo sensível
Entreolhando-nos por entre gotas espessas,
Um abraço molhado e quente, quase que fervente,
Que nos aquece,
enquanto nos tornamos um complemento,
Aos ratos e ao lixo,
Uma antítese,
Um contraste construído por camadas de lama,
Mas que de alguma forma na chuva se inflama,
Gotas que se tornam ar,
Beijos que se tornam liquidos,
Abraços que se tornam passagens translúcidas
Para algum lugar longe daqui,
Beijos que no fundo transformavam esse lugar,
Não em outro, mas em si mesmo, no melhor de todos...
Intervalo
Eu procuro te sentir
E não mais o teu estar,
Eu procuro me unir a ti,
Por um simples pensar,
E assim estaria com você porquanto tempo pudesse pensar em você,
O que seria quase o tempo todo.
Te sinto nos acordes de guitarra,
Te sinto nos ventos gelados que me tocam a pele,
Te sinto os abraços na água quente,
Te sinto o amor nas cordas do violão,
Te sinto a dor nos remendos do meu coração...
Te sinto fluir como um mar dentro de mim
Que vez em quando me cega da realidade,
Meus sonhos contigo já são tão vívidos,
Que acordo pensando em ter-te visto,
Mas logo me deparo com o vazio...
O vazio de emoções e de sentidos,
O vazio de não ter-te aqui comigo...
Então eu te procuro nas asas dos anjos que me vêm visitar,
Na esperança de que um deles seja você,
Eu te procuro nos intervalos das notas,
Te procuro em cada arco-íris depois da chuva forte...
Te procuro em cada esquina, em cada banco
Em cada sina, em cada canto,
Em minhas feridas, em minhas fraquezas..
E lá te encontro... E te chamo...